O estereótipo Otaku

Otaku : Expressão de origem japonesa utilizada para designar pessoas que são consideradas fãs extremistas de determinado assunto, esporte, programa de televisão, hobby e etc. Aqui no Brasil, mais conhecido como o sem vida, viciado em animes, punheteiro (pra desenho), lê mangá o dia inteiro e vive trancado no quarto. Estando no ano de dois mil e dezesseis é muito provável que você não se identifique com tais afirmações, mas a pergunta que fica é: Por que nós que gostamos de animes somos conhecidos dessa forma?

ogaaamvr0esvvmnno0_ojakgh3b0ustigb0vrsax1d7oug0rfpwf5kvzqml45nl70vzejhmpegxuvqzaxzvoeeups6cam1t1uhe7kobhntuehut9ghjahiwwfved

Antes de qualquer coisa é preciso entender como essa expressão chegou ao Brasil e por que houve essa distorção com o passar do tempo.

Não se sabe ao certo quando essa expressão foi usada pela primeira vez por aqui, mas a sua popularização veio durante o final da década de 80, quando a primeira revista especializada em animes e mangás deu as caras – a Animax. Por conta da falta de explicações, os leigos (e até mesmo a maioria dos leitores), passaram a entender que Otaku era uma expressão usada para fãs de toda essa cultura, e que por conta do seu publico majoritário (crianças e jovens), o termo passou a ser algo a ser levado como ofensa. Com isso surgiram os AntiOtakus – Sim, isso mesmo, toda essa rejeição pela palavra não é algo recente, isso vem acontecendo desde a sua primeira aparição.

O que muda desde aquela época pra hoje? Simples, como em qualquer parte do mundo, os tempos passam e aqui não foi diferente; Com o surgimento de outras editoras e a popularização de grandes títulos como DragonBall, Cavaleiro do Zodíaco, Pokemón, Digimon e afins, seria natural que os investidores passassem a olhar mais para esse grupo de fãs que estava crescendo, e com isso vieram os eventos focados para esse publico (que  infelizmente foi totalmente distorcido com o tempo também, mas isso é tema pra outro texto), o primeiro evento grande que tivemos aqui aconteceu em 1988, pra comemorar a fundação da OCARDE – Organização cultural de animação e desenho. Até esse momento, os eventos eram recheados de jovens com gostos semelhantes e por conta disso era normal que ao falar que gostasse de animes ou mangás, logo fosse associado a esse publico.

DSCN0643

Os  eventos ficaram mais frequentes e as pessoas mais fanáticas pela cultura cresceram. Durante a década de 1990, surgiram os Cosplayers, que não são nada mais do que pessoas vestidas de algum personagem de seu gosto. Isso fez com que a atenção da mídia também fosse chamada e como é de natureza, ela (a mídia) populariza algo ou destrói. No caso dos Otakus ela popularizou, mas não da forma correta, como é de praxe as suas entrevistas foram completamente focadas em pessoas mais extremistas e com isso passamos de uma visão de que anime e mangá era algo focado para crianças e jovens, para isso:

 

Por esse motivo é normal que ao ser perguntado, as pessoas prefiram dizer que gostam apenas de assistir para não falar que é um Otaku, já que imediatamente vai ser associado a esse publico.

Já se passaram vários anos e é normal que com o passar do tempo, o publico voltado a esse tema crescesse, mas a pergunta agora é: Será que os Otakus de hoje merecem ser conhecidos assim?

A resposta pra isso pode ser um pouco mais complexa do que parece. Assim como qualquer outro grupo cultural atualmente é difícil encontrar alguém que mantenha apenas um gosto restrito, por conta disso é natural achar um Otaku que goste de sair com os amigos pra beber, ir à um show de pagode, rock, sertanejo e afins, mas o erro que a mídia ainda continua mantendo é levar apenas os representantes mais estereotipados para as telas. Seja no mundo otaku ou no gamer, somos obrigados à ser comparados a youtubers e seus inscritos, então acaba gerando aquele desgosto por gostar do que gostamos e a vergonha em falar que realmente somos chegados a essa cultura.

Infelizmente ainda temos uma grande parcela de Otakus que “mancham” toda a visão exterior, esses que acham os japoneses uma raça superior não só tecnologicamente como culturalmente em qualquer aspecto ou que não quer que o seu anime favorito seja dublado ou popularizado apenas para não virar modinha. É muito comum que ao perguntar o motivo pra uma pessoa que não gostar de animes, ela diga que algum amigo ou alguém próximo a esse universo, tenha a recomendado um anime sangrento ou cheio de besteiras, achando que são animes de qualidade, quando na verdade a única coisa a ser tirada desses desenhos são pequenas cenas de ação ou empolgantes que apenas as pessoas mais próximas conseguem ter algum afeto. Como foi dito no meu texto anterior, cada pessoa tem um gosto diferente e sendo uma industria extraordinariamente grande é quase impossível que não exista algum que não agrade, basta apenas procurar.

fullmetal_alchemist_brotherhood_wallpaper_by_xylatakura07-d6yn4vu

Talvez seja uma tarefa difícil mostrar que o que vemos não é infantil, que o que vemos não nos faz ser o tipo pessoa que a mídia costuma mostrar. Estamos vivendo em uma época que tudo é motivo de polêmica, tudo é motivo pra desconstruir. Não é impossível que com o tempo, tudo que foi mostrado ao publico passe a ser melhorado e um dia não exista mais esse bloqueio pra falar os nossos gostos referente a cultura oriental.

Por fim, é importante deixar claro que existe sim o tipo de Otaku que a televisão mostra, que existe sim a realidade por dentro do esteriótipo que vemos, mas o que precisa ser visto é a forma que isso vem sendo generalizado. Se for pra mostrar a comunidade, que mostre também as diferenças que existem dentro dela e não apenas os casos mais extremos.

  • Lucas Linki

    10/10

  • Igor Goes Oliveira

    Caramba fiquei realmente surpreso em alguém estar disposto a pautar essa situação, fico muito feliz pela iniciativa Rodrigo, é realmente difícil demonstrar para as pessoas que as animações nipônicas podem ter um caráter pedagógico, principalmente filosófico e sociológico. Como já comentado, os “otakus” no Brasil sofrem muito desse preconceito e um dos pontos que atrapalharam o conceito que as pessoas tem de nós é a o tipo de anime que foi apresentado para os brasileiros, no caso os Shonens. Isso não significa que os shounens transformaram ideologicamente aqueles que o assistem, mas que as pessoas tem uma visão infantil dos otakus por acharem que todos eles gostam de animes com porradaria e violência e alguns desse nicho ideológico correspondem a expectativa dessas pessoas agindo da forma que foi mostrada. Infelizmente a critica tem contato com apenas uma pequena parte das obras que são produzidas no Japão, e nenhumas dessas obras são o que a de melhor das obras nipônicas, até quem assiste animes não tem tanto contato com obras desse tipo, isso se deve as pessoas verem os animes como entretenimento e não buscarem nela uma potencial obra de arte, se compararmos o sucesso de entretenimento x conteúdo vamos perceber que muitos dos “otakus” veem por entretenimento e não por quererem algo que lhe deem algo para se pensar, se muitos dos otakus assistem animes por entretenimento, por que a critica deveria se preocupar em procurar obras que ressaltassem o caráter intelectual das obras nipônicas?
    Querendo ou não a culpa também é da nossa comunidade, nós podemos tentar evidenciar essas obras de arte que estão ocultas, mas no Brasil nos sabemos que o as pessoas querem é conteúdo mastigado em meio a entretenimento, com uma critica que tente(se houver) ser semelhante a maneira dela de pensar, ou seja, é difícil de esperar de um pais que apenas segue mentalidades, buscar um conteúdo mais intelectual. Portanto, não adianta só colocar a culpa na mídia(apesar de ela também ter sua parte de culpa), isso apenas é o reflexo do situação intelectual que o Brasil atravessa hoje, que também faz parte na comunidade em que estamos inseridos.Um grande exemplo disso são os animes que estão em alta em sites como SuperAnimes, onde animes como Kiznaiver,Joker Game e Koutetsu no Kabaneri não estão sequer entre os mais vistos na semana, enquanto Boku no hero(shounen),Gakusen e Hundred(clichês) estão. Outro exemplo disso, foram as reações de alguns que assistiram o Ep 1 e 3 de Gate, que inseriu referencias de escravidão e prostituição que se fazia muito presente na época medieval, as pessoas reagiram de forma totalmente contraria ou tiravam sarro da tentativa de tornar o universo mais realístico. Infelizmente essa é a realidade de grande parte da nossa comunidade, implorando por um conteúdo filtrado para satisfazer a sua ignorância!

    • Rodrigo Andrade

      Poxa Igor, antes de tudo, muito feliz fico eu por ter um comentário tão bem elaborado no meu texto. Isso é super gratificante pra quem escreve.
      Respondendo o teu comentario de forma breve e tentando não repetir o texto: Sim, é verdade que os animes mais populares aqui, infelizmente são completamente focados em uma porradaria quase que sem sentido, e um tema bastante infantil, mas tivemos vários exemplos de anime de qualidade que passaram na TV, como o proprio FullMetal ou o segundo Macross. Infelizmente como foi dito no texto e no teu comentario, a maior parte da nossa comunidade, nos da a fama de quem gosta apenas de assistir animes dessa forma, quando na verdade, existem muitos (como eu) que descartam qualquer tipo de obra que não tenha algum conteudo real. Recomendo a leitura do meu texto anterior: http://smshare.com.br/sera-que-voce-ainda-gosta-de-animes/ – Tenho certeza que vai ser do teu gosto. Valeu Igor!

  • xxsugarfree

    ÓTIMO texto!
    Também acho que a midia muitas vezes de maneira maliciosa acaba expondo uma imagem do Otaku que não é única, ela generaliza muito na maioria das vezes. Mas acho que como a imagem do Nerd ocorreu mudanças ao longo do tempo é possível mudar essa imagem do fã de cultura japonesa, até porque também somos nerds!
    É necessário que as pessoas vejam que também somos pessoas normais, que estuda, trabalha, namora, sai com os amigos mas que também assiste muito anime e que consome muito conteúdo oriental! Que mal tem? Cada um com seus gostos e hobbies!
    Achei o texto fantástico a algumas semanas atrás eu postei um texto sobre cosplays e eventos cosplays nele tem uma pequena entrevista com uma amiga que tem costume de criar cosplays para uso em eventos se quiserem conferir basta visitar meu blog!
    Achei o texto fantástico como falei acima, sucesso o blog esta muito legal!
    https://somaisumaleatorio.wordpress.com/